quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Os Dons do Espírito Santo

Os Dons do Espírito Santo

Para entendermos o propósito dos dons espirituais, primeiramente vamos fazer um paralelo entre os textos de Romanos 12, 3-10, Efésios 4, 7-16 e os capítulos 12 a 14 de I Coríntios. Todos esses textos tratam a respeito de dons espirituais e tem algo muito comum entre eles, ambos fazem analogia à Igreja como corpo de Cristo, e traz o amor como fundamental para o exercício correto dos dons. Compare:
Rm 12, 4-5: Porque assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros tem a mesma função, assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros.
Rm 12, 9-10: O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.
Ef 4, 12: Com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo.
Ef 4,15, 16: Mas,seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxilio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor.
I Cor 12, 12-13: Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado de beber de um só Espírito.
I Cor 13, 1: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.
A semelhança que há entre esses textos não é mera coincidência, mas serve de base concreta para sabermos o propósito pelo qual os dons são concedidos.
Observe que em cada um dos textos o apóstolo Paulo cita tipos diferentes de dons espirituais, isso nos leva a crer que São Paulo não estava fornecendo uma lista completa e exclusiva dos dons, mas demonstrando que existem diversos, e que devem ser exercidos em função da edificação do corpo de Cristo, isto é, sua Igreja, e o amor uns para com os outros deve ser o foco no exercício dos dons.

Sobre o Dom de Línguas

Com o surgimento e o crescimento do movimento pentecostal e carismático, o dom de línguas tem sido tomado como a única e principal evidência de que o crente recebeu o Batismo no Espírito Santo. Nos anos que pertenci a uma denominação pentecostal, o dom de línguas era tido quase que como uma obrigação, as pessoas buscavam desesperadamente alcançar esse estágio, e não poucas ficavam frustradas por não receberem o tão almejado “falar em línguas estranhas”.
Assim que conheci e comecei a estudar a teologia reformada, passei a ver as coisas de um outro ângulo, sem os “óculos pentecostais”, ou seja, comecei a estudar a Bíblia buscando compreender o que realmente ela diz, ao invés de tentar compreender o que queria que ela dissesse. Partindo desse princípio, vamos analisar o que a Palavra de Deus diz em respeito ao dom de línguas.
Como está bem evidente no texto de Atos capítulo 2, as línguas faladas pelos discípulos eram na verdade outros idiomas, eram línguas humanas, tanto que haviam em Jerusalém na ocasião, judeus de várias as nações que ficaram perplexos em ouvirem homens galileus, falar das grandezas de Deus na língua materna deles, sem nunca terem aprendido tais idiomas. Está bem claro que não era uma fala extática, sem sentido, como se vê hoje em dia.
Para justificar sua algaravia extática os pentecostais alegam que o que falam é a língua dos anjos, usando para isso o capítulo 13 de I Coríntios. Ora, basta analisarmos o texto com um pouco mais de atenção, que veremos que Paulo não estava querendo afirmar que existia a tal “língua dos anjos”, e sim usar de forma hiperbólica, para dizer que nada tem valor se não tiver amor. Observe que ele diz “ainda que eu fale”, não sendo então uma afirmação, e sim uma suposição. A hipérbole fica bem clara no final do versículo 3, onde o apóstolo diz que “ainda que eu entregue meu corpo para ser queimado”, logicamente Paulo está usando de exageros propositais para demonstrar que o melhor caminho é o amor. Para completar a questão das línguas dos anjos, vemos nas escrituras que sempre que houve a comunicação de anjos com humanos, eles falaram no idioma que o ouvinte entendesse, como por exemplo, o anjo que falou com Maria, com José, com Abraão, entre outros.

As línguas na Igreja de Corinto

É importante salientar que após os acontecimentos de Atos dos Apóstolos, o dom de línguas só volta a ser mencionado na primeira carta de São Paulo aos coríntios, note que nem em Efésios 4 e nem Romanos 12 esse dom é citado, não vemos também os apóstolos manifestarem ou incentivarem a busca por falar em línguas em outros livros do Novo Testamento.
Em I Coríntios, Paulo dedica três capítulos para tratar a respeito dos dons espirituais, isso porque a igreja de Corinto estava buscando e utilizando os dons de forma errada e o apóstolo começa então, instruído pelo Espírito Santo a corrigir esses erros. Veja que logo no início do capítulo 12, onde ele começa a falar acerca dos dons, ele diz: “A respeito dos dons espirituais, não quero, irmão, que sejais ignorantes. (grifo meu)”.
Não era somente em relação aos dons que a igreja de Corinto estava desordenada, haviam mais uma série de problemas que o apóstolo Paulo teve corrigir nessa igreja, vejamos alguns exemplos: contendas, divisões, criancices espirituais, carnalidade (3,1-5); imoralidade a ponto de haver quem abusasse da mulher de seu próprio pai (5,1-2); litígio entre os irmãos (6,1); desordem na celebração da ceia, onde muitos comiam de mais se embriagavam com vinho, enquanto outros que chegavam depois ficam sem ter o que comer e beber (11, 17-22); haviam alguns que afirmavam que não havia ressurreição (15, 12), possivelmente havia também em coríntios pessoas que se batizavam pelos mortos (15,29).
Fica claro nos exemplos acima que realmente Paulo estava tratando com uma igreja estritamente problemática e imatura.
Apesar de muitos tratarem de forma individual, os capítulos 12 a 14 tratam de um mesmo tema, ou seja, a utilização correta dos dons espirituais. Observe que em 12,7 Paulo afirma que a manifestação do Espírito é concedida a cada um para o que for útil, ou seja, os dons eram distribuídos com um fim específico e eram concedidos a cada um conforme a vontade do Espírito (12,11). Nos versículos seguintes Paulo compara a igreja com um corpo e os crentes como membros, sendo que cada um tem função diferente, mas necessitam uns dos outros, ou seja, o dom que eu não tenho, o meu irmão pode ter, e o que eu tenho, talvez ele não tenha, isso para que precisemos uns dos outros. Nenhum crente tem em si mesmo todos os dons do Espírito, mas a Igreja como um todo tem a plenitude do Espírito, isso porque Deus age de maneira diferente em cada um de nós, distribuindo seus dons conforme lhe apraz, para a edificação do seu corpo.

O melhor caminho é o Amor

No final do capítulo 12, no versículo 31, São Paulo incentiva os crentes de Corinto a procurar os melhores dons, mostrando um caminho muito mais excelente, esse caminho é o amor.
O capítulo 13 de I Coríntios é um dos textos mais conhecidos de toda a Bíblia, tendo sido até usado numa música de Renato Russo, chamada Monte Castelo, isso devido à ênfase dá ao amor e sua linguagem hiperbólica e poética. Ora, o amor deve ser o motivo pelo qual ansiamos dons espirituais, até porque sem amor mesmo que tivéssemos todos os dons, não valeria de nada.
Se tivermos o amor como fundamento para a busca dos dons, não corremos o risco de nos tornarmos orgulhosos por termos este ou aquele dom, porque “o amor não se ensoberbece” (verso 4). Através do amor aprendemos a utilizar os dons em favor do próximo, ao invés de usar em favor de nós mesmos, porque o amor “não procura os seus interesses” (verso 5). Os dons são passageiros, mas o amor é eterno.
No versículo 8, Paulo afirma que profecias, línguas e ciência passariam, porque eles conheciam e profetizavam apenas em parte (verso 9), isto porque a revelação ainda não estava completa, era um período onde Deus ainda estava revelando sua Palavra aos homens, observe no versículo 10, onde ele diz que quando vier o que é perfeito, o que é em parte será aniquilado. Alguns afirmam que quando ele cita o que é perfeito, está se referindo à volta de Cristo, mas creio que Paulo está se referindo a revelação completa, que é a Palavra de Deus, perfeita e eficaz.

Alguns comentários sobre I Coríntios 14

No início do capítulo 14, Paulo volta a falar do amor e a incentivar os corintios a buscar com zelo os dons espirituais, dando maior ênfase então a dons que venham a edificar a igreja, como no caso do dom de profetizar.
Observe o versículo 4: “o que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja”. Muitos tem usado desse versículo para justificar o falar em línguas atualmente, afirmando que o dom de língua serve para a própria edificação, o que esquecem é que os dons são concedidos para edificação da igreja (verso 12), e não de si mesmo. Tanto que várias vezes o apóstolo fala que se for para falar em línguas tem que haver quem interprete, para a igreja receber a edificação, caso contrário deverá ficar calado (vide versículos 5, 13, 27).
Se formos analisar versículo a versículo de I Corintios 14, iríamos nos estender muito, por isso vamos analisá-lo como um todo.
Fica bem evidente em todo o capítulo que o apóstolo Paulo está ensinando que devemos procurar falar na igreja em língua que todos entendam para que sejam todos edificados, ele mesmo diz que prefere falar cinco palavras no seu idioma do que dez mil em outra língua (verso 19), por isso dá tanta ênfase ao dom de profecia, que hoje significa tão somente anunciar a profecia já escrita na bíblia, pois a revelação está fechada e não podemos ter outro fundamento além das Sagradas Escrituras.
A partir do versículo 26, Paulo começa a tratar a respeito da ordem no culto, nos versículos 27 e 28 ele estabelece regras para o uso do dom de línguas, que sejam dois ou três no máximo, e um por vês, havendo quem interprete, se não tiver quem interprete deverão ficar calados na igreja. Veja bem, é totalmente ao contrario do que se vê hoje em dia, varias pessoas falando em línguas estranhas ao mesmo tempo, sem nenhuma compreensão do que se está sendo falado.
Para encerrar, no versículo 39 ele novamente incentiva a buscar com zelo o dom de profetizar, e diz para não proibir falar línguas (lembre-se que para falar em línguas teria que ser um por vez e com interpretação), mas tudo tem que ser feito dom decência e ordem (verso 40, grifos meus).

Considerações finais

Infelizmente nos últimos tempos o ensino correto das escrituras tem sido deixado para trás em muitas igrejas, dando lugar a buscas pelo espetacular, pelo sobrenatural, a partir daí tem surgido cada vez mais ensinamentos e doutrinas baseados em sonhos, visões, revelações, etc. Precisamos voltar a viver e ter nossa vida e nossa doutrina firmadas tão somente nas Escrituras, pois tudo que precisamos saber Deus revelou ali, não há nada a acrescentar.
O objetivo desse estudo não é criticar movimento a ou b, mas tão somente mostrar o que a Palavra de Deus ensina, de forma zelosa e criteriosa, e principalmente em amor.
“Ora, irmãos, apliquei estas coisas figuradamente a mim e a Apolo, por amor de vós, para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro.” (grifo meu). I Coríntios 4,6.

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